Archive for junho \21\UTC 2009

Raymond Carver – Seu cachorro morre

junho 21, 2009

atropelado por uma van.
você o acha perto da calçada
e o enterra.
e se sente mal.
se sente mal consigo mesmo,
mas pior por sua filha
porque era o cachorro dela,
que ela amava tanto.
e que ela até ninava
e deixava dormir em sua cama.
você escreve um poema sobre isso.
e o chama de um poema para sua filha,
sobre o cachorro sendo atropelado por uma van
e como você cuidou dele,
e o levou para o bosque
e cavou e cavou para enterrá-lo
e o poema fica tão bom
que você quase se sente feliz do fato
do cachorrinho ter sido atropelado, senão
o poema nunca seria escrito.
então você senta e escreve
um poema sobre escrever um poema
sobre a morte deste cachorro,
mas enquanto você escreve, uma voz
de mulher grita
seu nome, seu primeiro nome,
as duas sílabas,
e seu coração pára.
passa um minuto, você continua escrevendo.
ela grita de novo.
e você se pergunta quanto tempo isso tudo vai durar.

Tradução de Caio Christiano
cao

Anúncios

Suécia na chuva

junho 19, 2009

Gotas…

Gotas…

Gotas…

Chove…

Suo…

Choro…

Gotas…

Gotas…

Gotas…

Sapo…

Cheiro…

Chato…

Gotas…

Gotas…

Gotas…

Chão…

Frio…

Xingo…

Gotas…

Gotas…

Gotas…

Vida…

Vejo…

Finjo…

Gotas…

Gotas…

Gotas…

Estocolmo 13/06/2009

Crassivaia

junho 19, 2009

Helena que és tão linda
mas ainda mais em meus sonhos
do que nos meus braços

E estes filhos todos que nós temos
porque imaginários, anjos são
que hão de crescer para se tornar
os adultos felizes que me disseram existir

E aquele beijo que não demos na chuva
compensa os dois dias que passamos sem nos falar
por uma caneca quebrada, ou teria sido um relógio ?

E se é aos gritos que me falas
é só porque, estou certo,
me acaricias quando falto

Que nos afastemos, que nos separemos
que ao olhar para ti não haja teu azul dos olhos
pois só assim te posso ver tão bela
cada vez que não vir nada

Que eu preciso mais da tua existência
que da tua companhia.

Madri 19/6/2009
sem helena

Quatis

junho 18, 2009

Os quatis do parque Blossac
me lembram muito a mim mesmo

Como eu, foram trazidos
dos confins da América do Sul

Como eu, levam uma existência solitária
exceto na época de reprodução

Como eu, se sentem fora de lugar
em meio à fauna e flora poitevina

Mas a diferença é que se sabe que, em cativeiro,
eles viverão cerca de 14 anos

E quanto a mim, não há uma alma
pra me dizer quando é que tudo acaba

Poitiers, 27/04/2007

coati